| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 |
| 8 | 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 |
| 15 | 16 | 17 | 18 | 19 | 20 | 21 |
| 22 | 23 | 24 | 25 | 26 | 27 | 28 |
| 29 | 30 | 31 |
Estranho iniciar o meu blog falando de morte. Mas eu cada vez mais acredito que conviver com a morte nos ensina a viver. Infelizmente eu tenho convivido com ela um pouco mais do que a maioria das pessoas que conheço. Conviver com a morte, não é só o ato de morrer em si, mas também conviver com pessoas que desistiram de viver, ou com pessoas que esperam pela “ morte certa” com a certeza que será em breve.
O que tenho observado é que : A convivência com a morte iminente faz com que os valores mudem totalmente. A pessoa não se importa mais se a toalha sujou, se o prazo para o pagamento de algo acabou, se chegou uma multa do carro, se o cristal quebrou, se tem comida estragada na geladeira...Encontramos então os verdadeiros valores do ser humano! E percebemos com quantas pequenas coisas nos importamos no dia a dia, que no final não terão nenhuma importância. Porém penso: Não se importar hoje com elas não é abdicar da vida também? Não é necessário se aborrecer com todas essas pequenas coisas para se sentir vivo?
Quem está a beira da morte também agradece por cada dia. Gestos simples como levantar, acordar, comer e tomar banho. Até ir ao banheiro se transforma em uma vitória. Isso nos faz ser mais agradecidos ao que temos, mas ao mesmo tempo nos dá a imagem certeira da dimensão do ser humano. Não somos nada! Em um segundo, passamos de pessoas produtivas que trabalham, dirigem, praticam esportes para pessoas incapazes de tomar um banho sozinhas! Essa fragilidade do ser humano e a certeza que no fundo somos incapazes de decidir nossa própria sorte torna nossa vida vulnerável. Isso gera a necessidade de se viver cada instante como se fosse o último.
Eu vivi uma tragédia pessoal: Meu companheiro saiu de casa para trabalhar. Me ligou as 9 horas, enquanto fazia uma parada para um cafezinho em um posto de gasolina, disse que me amava e que não se atrasaria para o almoço. Desligou o telefone, saiu do posto. Foi atropelado e morreu. Busco sempre relembrar cada palavra que foi dita. E fico pensando como há pessoas que realmente vivem cada segundo como se fosse o último. Ele foi uma dessas: Não perdeu seu ultimo telefonema pra falar de coisas como “Acabou o pó de café” ou “ Não esquece de pagar a conta” ou “ Você já fez determinada coisa?”. Apenas falou de amor.Tem gente que é assim. Vive acima das pequenas coisas. Isso me irritava na maioria das vezes, pois sempre estive muito ligada em coisas realmente importantes e práticas do dia a dia, que no final, hoje eu sei que não vão importar. Quando ele morreu meus clientes me deram férias. Eu que nunca tive uma semana de folga, porque todo mundo me ligava a qualquer hora do dia e da noite para resolver milhares de coisas. Vi meu telefone celular silenciar... De repente me dei conta que sou totalmente dispensável. E eu não sabia. Hoje sei desligar o telefone e aprendi a dizer Não. Como eu disse: a convivência com a morte nos ensina a viver melhor.
Um dos fatos mais chocantes, no que diz respeito a morte, foi presenciar o suicídio de um cachorro. Era um pastor alemão, que me lembrava muito a Magali, cachorra que eu e o Rodrigo encontramos atropelada na Marginal. O pastor alemão com o tempo adquire um sério problema nas pernas caseiras, que impede a sua mobilidade. Isso eu já sabia, pois lutamos contra essa doença durante meses até que finalmente ela se foi. Acredito até hoje que ela foi embora mais cedo para me poupar, pois quando viu que não conseguiria mais andar e eu não conseguia levanta-la do lugar,ela lançou-me o olhar de despedida, e naquela noite se foi. O cachorro que eu ví também era um pastor alemão. Ele estava na calçada, parado. Esquelético, com o corpo coberto de feriras, sarnas e todo tipo de doenças de pele, com as pernas traseiras semi paralisadas, mal podia se mover. Apenas contemplada com olhar cansado o passar dos carros. Então, levantou-se arquejando, de forma decidida e esperou o semáforo fechar. Avançou para o meio da pista e ficou lá de pé, simplesmente esperando o farol abrir. Nesse momento dei por conta: aquilo era um suicídio. Como se ele tivesse ouvido o meu pensamento, olhou diretamente para mim, com olhar resignado, cansado e decidido. No meu desespero e impotência, nada podia mais ser feito além de contemplar aquele olhar penetrante, que fixamente encontrava o meu cheio de pânico e desespero. A integridade daquele olhar não era de um animal, era de um ser humano, que resolve a sua própria sorte. Foi um segundo: os carros em velocidade avançaram e acabou...
Por dias eu passava pela avenida e observava no seu tumulo de asfalto os restos mortais do animal, que aos poucos se decompunham. Mas a imagem daqueles olhos resignados e decididos me fitando jamais sairão da minha mente.
E quando tenho vontade de chorar, pela morte. Lembro-me da integridade daquele que ao final, sabe que só resta sorrir para a morte da mesma forma que sorrimos para a vida.